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E o resto é perfumaria
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O Resto é Perfumaria

Quando o Aroma Deixa de Ser Útil para Virar Arte

Hoje recebi um áudio de uma amiga com um tom de exaustão na voz: “Eu realmente preciso urgentemente de um perfume, não aguento mais”.

Para ouvidos desatentos, poderia parecer apenas uma questão de vaidade. Talvez ela só quisesse se sentir mais cheirosa para sair, comprar um cosmético novo para dar um up no visual. Mas, com a escuta que a perfumaria autoral me ensinou a ter, eu reconheci o que havia por trás daquela frase. Era um pedido de socorro por arte.

Era o corpo dela, exausto, dizendo: não quero mais apenas funcionar; eu quero voltar a sentir.

Isso me fez lembrar de um episódio de um podcast que discutia como o perfume é inútil. Tão inútil quanto a arte, a música, a pintura e a poesia. E é exatamente nessa inutilidade sagrada que me inspiro para escrever este texto.

O mundo anda chato, cansado e inodoro

Vivemos cercados de exigências, planilhas, metas de produtividade e boletos. A engrenagem não para, e nós fomos convencidos de que precisamos girar na mesma velocidade. Até o nosso descanso virou tarefa. Até o nosso lazer precisa virar conteúdo para as redes sociais. O sono é medido por aplicativos, a meditação tem meta de minutos.

Nesse mar de obrigações diárias, tudo aquilo que não tem um fim prático e mensurável é colocado de lado com um certo desdém. Se não dá retorno financeiro, não serve. Se não é útil para a sua carreira, é desperdício de tempo. Se não tem uma função clara, é frescura.

Foi assim que criamos expressões populares e cruéis como: “O importante já foi resolvido, o resto é perfumaria”.

Usamos essa frase como se o perfume fosse algo supérfluo. Como se a busca pela beleza fosse uma distração infantil. Como se a arte, a emoção e tudo aquilo que nos faz genuinamente humanos pudesse ser cortado da equação da vida sem graves consequências para a nossa psique.

Mas eu te pergunto: que tipo de vida sobra quando a gente tira tudo aquilo que nos emociona?

Sem arte, a vida empalidece

A pandemia escancarou essa nossa fome de beleza. Quando fomos trancados em casa, com o mundo desmoronando lá fora, o que nos salvou não foram as planilhas do Excel.

Foi o canto na varanda, o filme antigo revisto pela décima vez, a dança de meias no meio da sala, a música no fone de ouvido, o cheiro do bolo assando no forno, o reencontro com o próprio corpo. Foi a arte que segurou a nossa sanidade pela mão. Quem nos manteve inteiras foram, ironicamente, as coisas que o mundo corporativo sempre chamou de “perfumaria”.

O líder indígena e pensador Ailton Krenak costuma dizer que “a vida não é útil”. E quando ele diz isso, com a sabedoria de quem entende a terra, ele está nos lembrando que a existência humana é infinitamente maior do que o nosso rendimento. Que estar vivo é muito mais do que apenas produzir e consumir.

A vida precisa ter sentido. E, na maioria das vezes, esse sentido não entra pela mente racional; ele entra pela pele, pelo som, pelo toque e pelo cheiro.

Perfumaria autoral como forma de expressão

É exatamente por isso que um perfume pode e deve ser considerado arte. E aqui não falo das fragrâncias produzidas em larga escala, padronizadas em laboratórios para agradar a milhões de pessoas e vender rótulos da moda.

Falo da perfumaria natural como criação, como linguagem silenciosa, como uma forma revolucionária de dizer ao mundo: isto é o que eu sou hoje.

Quando componho um perfume personalizado no ateliê da Harbolita, ou quando guio pessoas a comporem os seus em nossas oficinas, o que está em jogo não é a performance técnica de quem mistura melhor os líquidos. É o gesto de percepção. É o tempo precioso dedicado a fechar os olhos e simplesmente sentir.

É o prazer quase infantil de encontrar, em uma nota aromática de Jasmim ou numa gota de Patchouli, algo que finalmente nomeia uma emoção que estava presa na garganta. Nesse lugar, o perfume assume a sua função mais nobre: a de expressar. E isso basta.

O paradoxo da perfumaria natural

A perfumaria botânica, por ser feita exclusivamente com óleos essenciais, absolutos e resinas, muitas vezes cai em uma armadilha moderna. Por ter propriedades terapêuticas comprovadas, ela passa a ser vista apenas como uma ferramenta utilitária de bem-estar.

As pessoas chegam querendo que ela sirva para algo produtivo: um óleo para aliviar a ansiedade, uma sinergia para promover o foco no trabalho, um aroma para induzir o sono rápido.

E sim, a aromaterapia pode fazer tudo isso pelo nosso corpo físico e mental. Mas, ainda assim, ela não precisa.

Porque um perfume botânico também pode existir única e exclusivamente para ser belo. Só para tocar a alma. Só para expressar uma fase da vida. Talvez esse seja o seu maior poder e o seu ato de rebeldia mais profundo: não ter que curar nada, não ter que resolver um problema, não ter que provar a sua utilidade para o mercado.

Apenas revelar, sentir, emocionar. Como toda verdadeira obra de arte.

Quando tudo o que nos cerca vira obrigação, resultado, meta e tarefa… o que sobra, o que escapa às regras, o que emociona até arrancar uma lágrima invisível, isso sim importa.

Graças às deusas, o resto é perfumaria.